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Brasil: R$10 milhões em recursos federais serão usados para desenvolver órgãos para transplante



O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) e a Universidade de São Paulo (USP) anunciaram, o investimento conjunto de R$ 10 milhões no projeto que pretende desenvolver órgãos compatíveis para transplante. A carta de apoio foi assinada pelo reitor da universidade e pelo secretário de Pesquisa e Formação Científica do MCTI. Cada instituição fará o aporte de R$ 5 milhões. Os recursos serão aplicados na construção do biotério suíno biomodular visando a produção de órgãos para xenotransplantes. A previsão é que o local seja entregue em seis meses.


Xenotransplante é o termo técnico que define o transplante de órgãos entre espécies diferentes. Neste caso, serão utilizados suínos geneticamente modificados com potencial para evitar a rejeição imunológica hiperaguda do receptor humano. Os suínos são considerados os melhores candidatos e doadores universais, por possuírem fisiologia semelhante, órgãos com peso e medidas compatíveis, manuseio de baixo custo, curto período de gestação e ninhadas numerosas. Rins, coração e pele são os principais órgãos de interesse.


A iniciativa dos pesquisadores da USP, agora em parceira com o MCTI, é a única na América Latina voltada à pesquisa de produção de órgãos em animais para transplante em humanos. O projeto é coordenado pelo professor Silvano Raia, professor emérito da Faculdade de Medicina da USP, e pioneiro na execução de transplantes de órgãos no País.


O grupo de pesquisa que ele coordena é multidisciplinar, envolvendo geneticistas, embriologistas e imunologistas, e trabalha há quatro anos no projeto, tendo obtido resultados relevantes para a criação dos embriões suínos geneticamente modificados.

De acordo com o coordenador do projeto, os recursos são necessários para a etapa decisiva do projeto que envolve a criação dos suínos geneticamente modificados em condições sanitárias adequadas para evitar patógenos. O chamado pig facility é uma instalação de nível de biossegurança dois (NB2) indispensável para a criação de suínos doadores de órgãos e o início dos ensaios pré-clínicos. Além da construção do biotério biomodular, está em fase licitatória a construção da pig facility definitiva, que ficará pronta em 30 meses.


As atividades de pesquisa do projeto visam proporcionar as condições necessárias para o estabelecimento da tecnologia de xenotransplante no Brasil. Desta maneira, os pesquisadores terão condições de avaliar a possibilidade da utilização de suínos para a produção de órgãos compatíveis para o transplante em humanos.


Essa é uma alternativa para atender a demanda crescente por órgãos para transplante, ocasionada pelo aumento da idade média da população e pelo aperfeiçoamento dos medicamentos imunossupressores, entre outros fatores. Segundo Raia, desde que os transplantes de órgãos se iniciaram no mundo, há 20 anos, mais de dois milhões de vidas foram salvas. O método de xenotransplantes é o que melhor apresentou condições para a produção de órgãos adicionais. A tecnologia está na fronteira do conhecimento e as pesquisas nessa área podem contribuir também com outras áreas da medicina.


Espera-se que as pesquisas gerem conhecimentos que, a longo prazo, permitam a realização de xenotransplantes em território nacional, via Sistema Único de Saúde, promovendo acesso à população brasileira de tecnologia de ponta desenvolvida nacionalmente. Espera-se ainda que o desenvolvimento da técnica de xenotransplante e demais tecnologias associadas fomente o Complexo Industrial da Saúde brasileiro, trazendo desenvolvimento econômico e social para o País.


O secretário de Pesquisa e Formação Científica do MCTI enfatizou que o projeto está intrinsicamente relacionado com o tripé da pasta ministerial que é produzir conhecimento, gerar riquezas e contribuir com a qualidade de vida dos brasileiros. Ele destacou ainda que a pasta atua em coordenação para que as pesquisas científicas sejam realizadas dentro das boas práticas laboratoriais, exigidas pelos parâmetros regulatórios, para que as tecnologias cheguem mais rapidamente para utilização do paciente por meio do sistema de saúde.


O reitor da USP destacou que o projeto será desencadeador de uma série de conhecimentos com repercussão em diferentes áreas da medicina. Ele citou o projeto vai proporcionar equipes mais treinadas, melhores técnicas para cirurgias, novas descobertas na área de imunologia que vão além de proporcionar o desenvolvimento de órgãos para transplante, entre outras. Para o reitor, MCTI e USP se sentem honradas em apoiar o projeto, que coloca a ciência brasileira no cenário internacional.


O secretário de saúde do Estado de São Paulo destacou que o momento é considerado histórico, pois as pesquisas poderão auxiliar a salvar vidas de pacientes que precisam de transplantes de órgãos. Ele destacou que o projeto vai produzir legados na área científica para o Brasil e para o mundo, e de assistência à saúde.

Também participaram da cerimônia a diretora de Cooperação Institucional do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o diretor da Faculdade de Medicina da USP, o e representante do Instituto de Biociências da USP.


Demandas futuras – O Brasil é o segundo no mundo, em números absolutos, na realização do procedimento, atrás dos Estados Unidos, e cerca 88% dos transplantes são realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Mesmo assim, a fila de espera por órgãos é crescente. De acordo com dados do Sistema Nacional de Transplantes, do Ministério da Saúde, até julho de 2022, cerca de 59 mil pessoas estavam na fila para transplantes no Brasil. A maior parte aguarda por rins e córneas.

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